CIENTISTAS DA COMPUTAÇÃO
Linus Torvalds
Criando um SO por hobby e uma ferramenta de versionamento porque as outras eram muito ruins...
Em 1991, na fria capital da Finlândia, um jovem estudante de computação de origem sueca publicou uma despretensiosa mensagem na Usenet — um longínquo antepassado dos fóruns de simples mensagem de texto. Naquela mensagem, perguntava aos usuários se eles gostavam ou não no Minix e acrescentava que estava criando, apenas por hobby, um novo sistema operacional. Com o entusiasmo de quem ainda não podia imaginar a dimensão do que estava construindo, o estudante dizia que algumas coisas já funcionavam e que, dentro de poucos meses, talvez tivesse algo realmente utilizável. Sugestões eram bem-vindas, embora ele não prometesse implementá-las. E fazia questão de advertir: seu sistema não era portátil e provavelmente jamais funcionaria com algo além dos discos rígidos AT — afinal, eram os únicos que ele possuía.
Na simplicidade daquela mensagem estava a 1ª iteração de algo que viria a transformar a história da computação: o Linux. Décadas depois, aquele pequeno projeto de estudante estaria presente em servidores, supercomputadores, dispositivos e em boa parte da infraestrutura sobre a qual a própria Internet funciona. O singelo relato de Linus, posteriormente relembrado em seu livro Just for Fun, guarda uma lição que muitos projetos de software parecem esquecer: grandes sistemas não precisam nascer grandes. Às vezes, tudo começa com um problema pequeno, uma máquina disponível, algumas linhas de código e a vontade de fazer algo simplesmente porque parece interessante. Sem a obrigação de conquistar o mundo. Sem a pretensão de ser compatível com tudo. Sem sequer imaginar até onde aquilo poderá chegar.
Mas a história do Linux também revela outra ironia da tecnologia: na disputa entre gigantes, nem sempre é o produto tecnicamente superior que permanece de pé. Linux e Minix descendem intelectualmente de um irmão mais velho: o Unix, criado nos Bell Labs no final dos anos 1960 por Ken Thompson, Dennis Ritchie e seus colaboradores. Elegante, poderoso e influente, o Unix tornou-se uma referência para os sistemas operacionais que vieram depois. Seu sucesso, porém, trouxe consigo uma fragmentação. Grandes empresas passaram a desenvolver seus próprios descendentes: a Sun tinha o Solaris, a IBM o AIX, a HP o HP-UX, entre tantos outros.
Nascia assim uma família de Unixes proprietários que compartilhavam ancestrais, conceitos e ideias, mas nem sempre conseguiam conversar entre si. Aos poucos, decisões comerciais, licenças, interesses empresariais e disputas jurídicas começaram a pesar tanto quanto — e às vezes mais do que — as decisões puramente técnicas. Era o período que ficaria conhecido como as “Unix Wars”.
E então surgiu uma pergunta inevitável: diante de tantos Unixes, tantas empresas, tantas licenças e tantas incompatibilidades, qual escolher? A história acabou oferecendo uma resposta que, vista de hoje, parece quase poética. Enquanto gigantes disputavam entre si qual versão do Unix deveria dominar o futuro, aquele pequeno sistema iniciado por um estudante finlandês, feito por hobby e sem grandes pretensões, crescia silenciosamente. Era aberto, podia ser estudado, modificado, distribuído e executado em máquinas cada vez mais diferentes.
Os gigantes discutiam quem seria o dono do Unix. Enquanto isso, o Linux tornou-se de todos.
Conexão com a sala de aula: Ao criar uma branch e revisar um commit, você usa ferramentas ligadas à prática de colaboração em software livre.